Tendência sem cor?

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Alguns meses atrás, publicamos no blog algumas previsões de megatendências identificadas por institutos de decoração. Uma delas era a de que, passada a última crise econômica global, estávamos dispostos a ser felizes. Isso iria se refletir em vários aspectos, principalmente nas cores para alegrar nosso doce lar. E, de fato, vimos uma explosão de cor acontecer nos ambientes.

milao-2010-charles-eames-citterio-dixon-lotacao-maxima-magis_tomdixon_meshMas, chegou  a Feira Internacional do Móvel de Milão  e andei lendo por aí algumas interpretações dizendo que  os designers  do evento teriam se sensibilizado com a crise financeira mundial dos fabricantes e, visando à diminuição de custos, preferiram adotar cores neutras como o preto, o branco e no máximo o bege, como a cadeira Mesh de Tom Dixon para a Magis (foto). Nessa linha de raciocínio “automático”, o minimalismo do estilo clean seria a próxima tendência da decoração.

Antes de tudo, quero deixar claro que considero Milão o maior centro de referência mundial do design com uma inegável importância para o setor. Mas, temos que ter cuidado com certas conclusões. Primeiro, porque é complicado falar de tendência numa feira como a de Milão, um lugar onde todas as “tribos” se encontram e cada uma se expressa a sua maneira.

É preciso levar em conta também que o design em Milão é apresentado, salvo exceções, isoladamente, fora de uma ambiência como sala, quarto etc. Daí não se pode deduzir que as peças exibidas são tendências para a ambientação como um todo.

Outra observação importante é a relação entre as necessidades da indústria e o desejo do consumidor. As peças  com cores  neutras demonstraram a insegurança de empresas pelo uso dos tons vibrantes. Pode ser que o mercado, pós-Milão, tenha decidido apostar nesse estilo minimalista porque nunca sai de moda e geralmente funciona como base para uma decoração mais ousada ou mesmo barroca. Mas, isso não quer dizer que o desejo do consumidor vai mudar radicalmente de um ano para o outro.

Não vamos esquecer também que as empresas vivem da constante inovação que move financeiramente o setor. Se em uma edição a cor predominou, na outra, alguma coisa “tem que mudar” para alimentar o moto-contínuo. Essa  é a lógica do mercado e é cada vez menos a de quem compra.

Em suma, as motivações pontuais de uma parte dos designers presentes em Milão não são suficientes para acabar com uma megatendência  na decoração, assim tão rápido. Elas são geradas por fatores mais profundos e permanecem por prazos bem mais longos.

O que, a meu ver, os designers de Milão fizeram foi tentar ajustar os interesses de consumidores e fabricantes. Aliás, função original do designer que trabalha para grifes. Mas as peças maravilhosas criadas por eles em tons neutros, mas com rigor estético, formas e texturas inovadoras, podem continuar integrando muito bem espaços coloridos.

As mudanças de comportamento não são tão bruscas. Por mais que Milão seja o centro mundial de referência em  design, não significa que,  de repente, como quem troca de roupa,  vamos deixar de querer ser felizes, adotar o minimalismo puro e abandonar as cores.  Uma coisa é querer ter peças de design clean – a mistura de estilos  tem se mostrado uma tendência de vida longa. Outra coisa é  mudar de estilo, seja ele qual for, a todo o momento.

Minha aposta é de que a cor continuará sendo uma tendência, mesmo que não seja unanimidade (essa sim é que não existe mais). Ela traz mais alegria para a casa e está aliada a outro conceito novo nos estudos de grandes tendências: o de liberdade para deixar a casa do jeito que a gente gosta.
Alguns exemplos de cor na decoraçao de vários estilos:

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Mesmo em Milão, um olhar mais atento pode perceber que as cores não desapareceram dos projetos, justamente porque não há mais espaço para o design universal num mundo onde a identidade pede passagem. É só conferir os estandes de várias grifes renomadas, como a italiana Moroso.

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Estande da marca Moroso

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Cadeira Murano Vanity, design de Stefano
Giovannoni
para a italiana Magi

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A designer italiana Paola Lenti mostrou sua nova
coleção no Palazzo Delle Stelline.


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Gaetano Pesce reproduziu a natureza em fios sintéticos
coloridos para dar um ar de jardim ao sofá da Meritalia

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Mesa de Charlotte Perriand para Cassina

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Cores nas estampas da Missoni

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Cadeiras assinadas por designers israelenses

Se as indústrias preferirem adotar, nas novas coleções, um design mais neutro, por medo de arriscar em tempos difíceis, vai ficar por nossa conta  a tarefa de imprimir identidade à decoração porque uma coisa é certa: do ponto de vista do consumidor, a personalização é uma megatendência que  vem se confirmando. Podemos ser clean, barrocos, clássicos, românticos, ecológicos, futuristas ou uma mistura de vários.

Mesmo porque, essa coisa de moda na decoração já foi! As pessoas querem resgatar a dimensão subjetiva na construção do seu refúgio, e não continuar como meros consumidores despersonalizados à mercê dos modismos, como no passado.

Escrito por Verônica Fraga

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