Tenho asas!

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Por Joyce Diehl

Cansada de gurus, sigo meu próprio caminho

Sempre quando paro para escrever esta coluna, olho em volta. Vejo o que anda circulando ao meu redor, seja na arquitetura, na decoração, no design, seja na moda das passarelas – quem nem sempre chegam até nós.

E hoje só se fala em tendências, melhor, em  megatendências, viram temas de palestras e workshops, arrastando multidões. Fala-se em cores, dá-se a palheta e vira lei. Fala-se fomas e vira receita de pão. Fala-se em felicidade, eventos concorridíssimos, milhares de pessoas assistindo, como se fosse ela, a felicidade, uma grande desconhecida nossa, e não a amiga que procuramos encontrar todos os dias quando levantamos, por quem abrimos os olhos sem pestanejar antes mesmo do dia raiar. Faz-se gurus de toda ordem.

Será que precisamos de regras? De palhetas? De receitas? Será que  precisamos mesmo de gurus? Será que precisamos sempre estar antenados, ligados, plugados, ou devemos, pelo menos por vezes, como quem muda o canal – ou se desliga, melhor dizer –  parar para ouvir o coração, dar espaço para a intuição e para o que somos ou queremos ser – ou queríamos ser e o mundo não deixa? Não seriam essas pessoas simples e normais como nós, mas que se deram conta desse abismo de incerteza que nos cerca?

Escolhas do dia a dia. Feito quem lê horóscopo, vemos o que está na pauta, o que dita a moda. Isso inclui nossas roupas, o que comemos, nossa casa. Vivemos de modismos ou de olhos no futuro. Um futuro que nem sempre nos alimenta, nos veste, nos deixa feliz. Eu , por exemplo, detesto minimalismos, monocromia. Vazios. Cenários. Adoro casa cheia. De cores, de móveis, de enfeites , de flores, de pets e de amigos. Cheia de passado e de presente. Cheia de carinho e de afeto. Um lar e não uma casa de revista, dentro do colunismos da vez, encarcerada no que ditam os outros, sejam lá quem forem – geralmente de bem longe daqui.

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Ok, concordo, temos que estar ligados, se vivemos disso. Nós, estilistas, arquitetos, decoradores, designers, blogueiros, gourmets, temos que estar ligados, por dentro. Mas ligados e não acorrentados, sem vestir o que não nos cabe, sem comer o que não gostamos, sem usar um ou outro apetrecho que não nos caia bem. Sem dar à nossa casa, algo tão intimo, a cara de quem mora nela, no caso, nós mesmos.

Sim, olhar com o coração. Saber de onde vem a felicidade que nos alimenta, se da poltrona lançada em Milão ou da casa da vovó, já tão gasta pelo tempo, mas tão recheada de histórias. Se o tecido da última coleção ou a manta que herdamos de nossa mãe, feita de longas e solitárias noites em frente à TV. Até porque, convenhamos, andamos loucos por pegar as peças das casas delas, mães, avós, tias de todo dia. Ou não é?

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Ser o que se é. Abrir nossa mente como quem espera a Primavera. Até chegar aqui, a natureza já se desfez de suas folhas, já reteve sua seiva, esperando o momento de recomeçar. Sábia ela, sabe o que quer. Eu também sei, não porque sou sábia, mas porque me escuto. Porque tento me ser por inteira. Abrir minhas janelas para o sol e encher meus vasos de flores. Meu sofá cheio de almofadas , mesmo que nele se deitem os cães. A poltrona, quem sabe, de minha mãe, misto de mobiliário e lembrança. A radiola que me serviu de casa de bonecas sempre a me lembrar da menina que ainda sou. O tapete que não dá trabalho de manter e é gostoso de deitar e rolar, com quem e quando eu quiser, mesmo que seja roxo.

A cozinha que convite a se chegar. Tudo ali na mão, pode pegar. Muitas louças desconexas, porque gosto – e porque ninguém é igual a ninguém. Muita cor porque preciso. Toques de alegria porque me alimentam tanto quando um bom prato de massa. E aberta para a sala, claro, pois quero ver e ser vista, sentir-me em casa.

Meu quarto? Tudo de bom. Muita almofada e edredom. Um abajur para pouco se ver e outro mais forte, ao lado do canto só meu, quem sabe de leitura. Sim, livros, como quem espera ou decora. E uma escrivaninha pequena, com cara de penteadeira, bela cadeira, papel e caneta ali, bem à mão, pois nunca se sabe quando chega a inspiração…

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Um quarto de hóspedes, porque quero ter muitos. Simples, mas confortável, como merecem ser recebidos. Um escritório abarrotado de livros, os que já li e os que pretendo ler…E muitos objetos, dos que já tenho e dos que pretendo ter. Artesanato, muito, porque gosto de saber quem fez o que. Arte, toda, porque dela também vem meu alimento d’alma. E quadros, muitos quadros, de mim e de você.

Uma casa assinada, som, mas por mim, e por quem me vem. Cheia de lembranças e de tudo que amo e quero por perto. Que me faça suspirar e ver que a vida vale, enfim, a pena. Que tenha nela o melhor que quero de viver.

Outro dia brinquei no meu Facebook – que nem é meu, é do mundo – que não queria fazer uma ” lista da bota” , ao moldes do filme “Antes de partir”. E sim uma “lista da vida”, com as peças que sonho em ter. Porque as amo, porque me fazem bem, porque me representam, e não porque alguém disse que está na moda….

E me vem à cabeça a frase de Frida Kahlo, a quem a vida castigou demais, mas nem assim deixou de amar e nem desistiu de se ser: ”Para que preciso de pés quando tenho asas para voar?’

Imagens resgatadas dos site Casa de Valentina e Achados de Decoração.

Joyce Diehl é arquiteta e autora do site Revestirfoto_joyce_19_nov_2007
info@revestir.com.br

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