Um olhar sobre o wabi-sabi

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Me considero uma pessoa perfeccionista. Não sei se é um defeito ou uma qualidade. Mas tenho consciência de que, assim como ninguém, não sou perfeita. Aprendi a lidar com as contradições da vida, com o imponderável e com o que é aparentemente incompreensível.
O detalhe interessante é que nessa minha busca pela perfeição, que é mais uma característica do que uma filosofia de vida, a imperfeição sempre esteve incluída, principalmente do ponto de vista estétio. Sabe aquele cabelo que foi cuidadosamente “desarrumado” e ficou lindo? É isso!
E num belo dia, tomei conhecimento da cultura wabi-sabi, cuja principal premissa é a beleza da imperfeição.

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Contam que o conceito surgiu no século 15. Um jovem, Rikyu, queria aprender os complicados rituais da Cerimônia do Chá e procurou o grande mestre Takeno Joo. Para testar o rapaz, o mestre mandou que ele varresse o jardim. Rikyu limpou o jardim até que não restasse nem uma folhinha fora do lugar. Ao terminar, examinou cuidadosamente o jardim impecável, cada centímetro de areia imaculadamente varrido, cada pedra no lugar, todas as plantas ajeitadas. E então, antes de apresentar o resultado ao mestre, Rikyu chacoalhou o tronco de uma cerejeira e fez caírem algumas flores que se espalharam displicentes pelo chão. Mestre Joo, impressionado, admitiu o jovem no seu mosteiro. Me apaixonei pela história!

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Os mestres japoneses, com a cultura inspirada nos ensinamentos do taoísmo e do zen budismo perceberam que a ação humana sobre o mundo deveria ser tão delicada que não impedisse a verdadeira natureza das coisas de se revelar.
Então, na coluna deste mês resolvi explicar até que ponto me indentifico com esse conceito. E também falar sobre o tênue limiar que separa essa filosofia estética  oriental, do mau gosto e da falta de noção que tenho visto por aí com nome de wabi-sabi.

Os princípios do wabi-sabi são:
Perceber a beleza que se esconde nas frestas do mundo imperfeito seria uma arte. Você conhece aquela história de que os tapetes persas sempre têm um pequeno defeito como sinal de autenticidade? É isso! A estética da imperfeição começa quando a gente reconhece e aceita nossa condição humana. É um jeito de “ver” as coisas através de uma ótica de simplicidade, naturalidade e aceitação da realidade.

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E a natureza das coisas é percorrer seu ciclo de nascimento, deslumbramento e morte. Elas são efêmeras e frágeis.
Seus adeptos perceberam a beleza e a elegância que existe em tudo que é tocado pelo carinho do tempo.

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Uma velha tigela de chá, musgo cobrindo as pedras do caminho, uma única rosa solta no vaso, as manchas de um espelho que pertenceu à bisavó…

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Isso tem tudo a ver comigo e também com muitas pessoas que estão revendo seus conceitos no século XXI. O seja, ficando só com o que importa mesmo nessa vida! Uma espécie de ecologia mental para varrer todo o lixo que não serve para nada, só polui.
Porém, é aí que entra o bom senso para saber discernir entre a imperfeição que é bela e o que é desleixo, mau gosto, abandono, feiúra mesmo. Tenho plena consciência de que isso depende de cada pessoa e o que eu considero muito feio, pode mesmo ser lindo para alguém.
Mas como essa é uma coluna opinativa tenho que focar no meu olhar, na é verdade? Por exemplo, não consigo ver beleza nisso:

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Muito menos nessa porta pantográfica enferrujada

Acho que uma ou outra peça descascada ou enferrujada, tudo bem, mas tudo detonado é demais para mim! E o tempo presente? Não conta?

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O wabi-sabi acredita que as coisas simples transmitem energias positivas e espiritualidade à casa. Defende que ela deve ser um santuário, não uma loja exibicionista. Concentra-se na beleza das coisas tal e qual elas são, no conforto e no bem-estar que essa naturalidade transmite.

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A palavra “wabi” significar “coisas simples e frescas” e a palavra “sabi” significa “coisas cuja beleza foi adquirida com a idade”.

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É dar valor à autenticidade, à natureza e à simplicidade, em detrimento da ostentação e da alta tecnologia. Tudo bem, nós não somos japoneses, portanto, isso também não é um dogma. Como todo ocidental, gosto sim da tecnologia porque facilita a vida. Mas não gosto do ar futurista que ela traz. Prefiro ela escondida, exercendo só o seu papel de fazer as coisas funcionarem.

Também faz parte dessa da estética wabi-sabi a preferência por ambientes minimalistas, simples, orgânicos e modestos. Nesse aspecto também, eu não sinto boas energias em ambientes muito cleans. Com raras excessões, acho que são frios. Prefiro os mais aconchegantes, menos minimal. Mas também não gosto do exagero. Sou mais pelo equilíbrio. Agora, levando em conta que o wabi-sabi presupõe uma vida integrada à natureza, a coisa muda de figura. O único caso em que aposto no minimalismo é quando se tem uma vista natural:

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O wabi-sabi privilegia-se o uso de materiais naturais (madeira envelhecida, pedra, barro, lã, algodão cru, linho, caxemira, papel de arroz…) em vez de materiais artificiais e/ou luxuosos (plástico laminado, mármore, placa de vidro, porcelana, poliéster, lycra…).

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Eu também gosto muito mais de uma mesa de madeira rústica do que uma de córian brilhante! Mas não dá para levar tudo ao pé da letra. Em nome da preservação da natureza, aprendemos a aceitar o fake, que é mais sustentável. Por isso,  gosto também de uma seda sintética, por exemplo. Além de linda, não suja. Temos que dar um desconto, afinal, no século XV não dava para prever tantas transformações, não é mesmo?

Feitas essas ressalvas, acho tudo muito bacana nesse estilo:

Em termos de peças de decoração o wabi-sabi valoriza as artes decorativas, a mobília e os elementos reciclados/reaproveitados, objetos feitos à mão e encontrados em feiras de usados, antiguidades e outras do gênero.

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Para eles, a natureza deve ser uma companhia constante e deve ser trazida do exterior para o interior sempre que possível: plantas e flores. Até ramos de árvore são bem-vindos.

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Proteger a casa contra o ruído, organizar a casa de cima a baixo, deitando fora, reciclando ou doando o que está a mais, encontrar um lugar específico para cada coisa para manter a organização. Isso permite a energia circular muito melhor.

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Privilegiar a luz natural e a de velas em detrimento da iluminação artificial.

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Gosto especial por formas irregulares e que não têm necessariamente de combinar entre si (em termos de mobiliário também).

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Expor peças com alma: fotografias em preto e branco do casamento dos seus avós e da família, lençóis e toalhas bordados pela sua mãe, um conjunto de pedras apanhadas à beira-mar ou um desenho colorido do seu filho.

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Criar um espaço pessoal que serve de refúgio e/ou de meditação.

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Apreciar a presença de arranhadelas e fissuras na mobília, paredes, portas ou objetos é considerado um símbolo da passagem do tempo e da forma carinhosa e natural com que foram utilizados.

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No ambiente certo, as peças gastas por anos de uso ganham uma magia inigualável e reconfortante, são companheiros de uma casa, testemunhos de uma vida.

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E eu acrescento que tudo isso em contraste com elementos novos, cores alegres e misturados a peças de design contemporâneo fica “perfeito”! Rsrsrsrs….

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Publicada originalmente na coluna de Veronica Fraga na revista eletrônica Revestir.

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