Contemporâneo

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“Não basta sair da escola como um bom arquiteto, importa também conhecer o mundo em que vive”.

OSCAR NIEMEYER (1995)

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A toda hora ouvimos falar de uma decoração contemporânea. Mas será que sabemos mesmo o que é? Será aquela que inclui os últimos lançamentos da Feira de Milão? Ou a que faz uso de cores vibrantes? Ou então, é aquela que contém muitos elementos infantis e lúdicos? Como poderíamos definir essa tal de “decoração contemporânea”?  Para começar, contemporâneo é tudo o que tem a ver com o tempo presente. O modernismo já foi contemporâneo na sua época, o art déco também, até o vitoriano já foi um dia! Como vamos ser chamados no futuro, quando deixarmos de ser contemporâneos? Isso eu não sei, mas vou tentar ajudar a entender as características que marcam o estilo de nosso tempo.

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Tanto na arte quanto na moda, na arquitetura, no design de produto e de interiores, os estilos seguem tendências de comportamento de uma época. Refletem o estágio cultural, econômico e tecnológico em que nos encontramos. E costumam ser caracterizados em contraposição ao estilo anterior.

O contemporâneo já reúne uma série de elementos capazes de diferenciá-lo do estilo predecessor, o modernismo. Mas o modernismo já dava sinais de desgaste desde a década  50 do século passado, quando surgiu a expressão “pós-modernismo”! E até hoje ainda não deram um nome para este “pós”. Na minha opinião, o motivo é que a ruptura radical com o modernismo ainda não foi assumida pelos estudiosos.

Portanto, o contemporâneo é pós-moderno. Até quando,  não sabemos. Mas o que isso significa?

No modernismo, que também era uma reação ao rebuscamento do estilo imperial, havia uma tendência de generalizar as necessidades humanas, pois as mesmas seriam universais, podendo ser uniformizadas.

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É difícil encontrar imagens de interiores modernistas hoje que não sejam releituras

A casa era vista como um objeto a ser produzido em massa, ao qual o indivíduo deveria se adaptar. Houve então, um desnudamento do interior, que ficou cada vez mais limpo e vazio. Com isso, toda a ideia de aconchego foi eliminada juntamente com os vestígios do passado de seus moradores. A casa – que deveria servir ao indivíduo que nela vive, não só o presente, pois segundo Bachelard (1989, p. 70) ―o verdadeiro bem-estar têm um passado (…) e todo um passado vem viver, pelo sonho, numa casa nova – fica distante e desconhecida para o seu morador.

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O contemporâneo surge como uma contestação à monotonia estilística universal predominante o modernismo, exclusivamente funcional e sem história. O emprego de ornamentações e a apropriação de signos de outros estilos tem o propósito de inovar ou buscar uma nova estética a partir do ecletismo.  As formas retas e limpas dão lugar às curvas, à fantasia, à ironia.

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O contemporâneo é caracterizado  pela re-significação da temporalidade e da espacialidade. Não há mais o mesmo tipo de sensibilização de variações do tempo conforme havia antigamente. O tempo é o presente. Assim, há o desaparecimento do senso do passado e do futuro, uma espécie de a eterna presentificação.

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Para sobreviver ao caos contemporâneo, dar sentido à vida e às relações com os outros e com o mundo passa a ser um caminho possível. Neste caminho surge a estética da singularidade.

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O sujeito contemporâneo parece estar atento a uma noção não-linear de progresso, ao contrário do modernista. Não há mais o conceito de evolução estilística e evolutiva. Agora todos os estilos e épocas convivem simultaneamente.

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O “re-design” transforma objetos do dia a dia com alterações sutis e críticas, tornando os mesmos materiais de reflexão estética. Objetos de uso comum, como lâmpadas, chapéus e sapatos, assim como exemplos do design clássico, são redesenhados, transmutados “alquimicamente” com projeções orgânicas e experimentalismos cromáticos.

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Peças de mobiliário típicas dos anos 50, antigas cadeiras, entre outros exemplos, são incorporadas ao novo estilo decorativo, ora surrealista, ora cubista, ora art déco, ora estilo anos 50 ou mesmo pop. Há um abraço tanto ao histórico quanto aos ícones da pop art, numa irônica miscelânea de ingredientes à primeira vista incompatíveis. É a reinvenção do passado no presente numa fusão com as novas tecnologias.

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A mobília contemporânea se transforma mediante associações literárias e poéticas, com ironia, inventividade e significados mais profundos, parecendo se encantar ao brincar com a história.

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Trabalhar sobre o já existente, sobre o predefinido, sobre o já construído, modificando-lhes os signos, a estética, a expressividade, até modificar o seu sentido e sua interpretação.

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A casa tem grande importância para o homem, pois suas vidas estão ligadas a ela. É nela que se busca a intimidade e o conforto. É onde se abriga das intempéries e se descansa. “É nosso canto no mundo. Ela é o nosso primeiro universo… abriga o devaneio, protege o sonhador, permite sonhar em paz … é um corpo de imagens que dão ao homem razões ou ilusões de estabilidade … é um ponto de referência de onde sempre partimos e para o qual sempre desejamos retornar” (Bachelard)

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A casa relaciona-sentimentalmente com o homem, pois sua configuração depende do modo de vida de seu habitante, podendo incorporar uma dimensão simbólica quando este lhe dá personalidade, transformando-a em algo próprio e pessoal.

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O que se precisa é de uma sensação de domesticidade, de um ambiente aconchegante.

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Então vejamos.  Podemos identificais as seguintes características do estilo contemporâneo:

  • Mistura de estilos de várias épocas, com o predomínio de uma ou de outra;
  • Quebra de fronteiras: estilísticas, espaciais, temporais…
  • Reciclagem e novos usos de objetos e móveis;
  • Reinvenção do passado:
  • Inserção de novas tecnologias:
  • Humanização da decoração;
  • A percepção de que a cor é fundamental para trazer alegria para a casa;
  • Criatividade;
  • Ludicidade (que permite interagir, brincar)
  • Liberdade de expressão e o fim das regras impostas de fora para dentro;
  • Personalização;
  • O lar como um meio de expressão individual;
  • A casa como refúgio do mundo exterior;
  • Integração dos espaços para valorização do convívio familiar e social;
  • Uso de materiais ecologicamente corretos;
  • Busca dos valores essenciais da vida: conforto, aconchego, aproximação com a natureza e a arte, paz, beleza simples;
  • Negação da ostentação como luxo e status social;
  • Consumo consciente;
  • Valorização da organização da casa;
  • Busca por humanizar os objetos de uma sociedade high-tech e computadorizada;
  • Redescoberta do ornamento, da cor, das conexões simbólicas e da história da forma;
  • Retorno do interesse pela beleza nos objetos, boa manufatura e formas sofisticadas, assim como pela artesania tradicional;
  • Identidades híbridas;

Talvez tenha esquecido algumas. Mas penso que estas já são suficientes para configurar um estilo único.

Podemos fazer um exercício de futurologia para adivinhar que nome o estilo contemporâneo de hoje terá no futuro. Se for pela estética poderá se chamar “ecletista”, ou quem sabe free style, “simultaneísta”, “personalista”. E você tem alguma ideia?

InspiracaoAntonia Mendes

O que importa é que tomamos as rédeas da concepção estética de nossa decoração. E, ao meu ver, isso é bom!

Publicado originalmente na coluna de Veronica Fraga do portal Revestir.com

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