Decoração wabi sabi

517

Acho que sou meio perfeccionista. Não sei se é um defeito ou uma qualidade. Mas tenho consciência de que não sou perfeita. Aprendi a lidar com as contradições da vida, com o imponderável e incompreensível.
O detalhe interessante é que nessa minha busca pela perfeição, que é mais uma característica do que uma filosofia de vida, a imperfeição sempre esteve incluída, principalmente do ponto de vista estético. Sabe aquele cabelo que foi cuidadosamente “desarrumado” e ficou lindo? É isso!
E num belo dia, tomei conhecimento da cultura wabi sabi, cuja principal premissa é a beleza da imperfeição.

DelicadezaRustica2

Contam que o conceito surgiu no século XV. Um jovem, Rikyu, queria aprender os complicados rituais da Cerimônia do Chá e procurou o grande mestre Takeno Joo. Para testar o rapaz, o mestre mandou que ele varresse o jardim. Rikyu limpou o jardim até que não restasse nem uma folhinha fora do lugar. Ao terminar, examinou cuidadosamente o jardim impecável, cada centímetro de areia imaculadamente varrido, cada pedra no lugar, todas as plantas ajeitadas. E então, antes de apresentar o resultado ao mestre, Rikyu chacoalhou o tronco de uma cerejeira e fez caírem algumas flores que se espalharam displicentes pelo chão. Mestre Joo, impressionado, admitiu o jovem no seu mosteiro. Me apaixonei pela história!

wabisabi21

Com a cultura inspirada nos ensinamentos do taoismo e do zen budismo, os mestres japoneses perceberam que a ação humana sobre o mundo deveria ser tão delicada que não impedisse a verdadeira natureza das coisas de se revelar. E a natureza das coisas é percorrer seu ciclo de nascimento, deslumbramento e morte. Elas são efêmeras e frágeis. Seus adeptos perceberam a beleza e a elegância que existe em tudo que é tocado pelo carinho do tempo.


Hoje o conceito é um dos que compõem as misturas estilísticas contemporâneas. E muitas vezes pode ser confundido com o industrial (por causa das estruturas aparentes e paredes descascadas, com o sabby chic que também valoriza o aspecto envelhecido das coisas, com o boho, pelo jeito descontraído e a valorização do trabalho manual, assim como da natureza. E tem muito de rústico. Mas o que de fato acontece é um verdadeiro refogado dessas influências na decoração atual. A ideia do efeito desgastado pelo tempo, que muitas vezes nem é real, mas fabricado para dar essa impressão, se alastrou, caiu no gosto!

É o que se vê, o real e o fake. Mas repare que o fake precisa passar a ideia de realidade para ser legitimado. Você conhece aquela história de que os tapetes persas sempre têm um pequeno defeito como sinal de autenticidade? É por aí! A estética da imperfeição começa quando a gente reconhece e aceita nossa condição humana. É um jeito de “ver” as coisas através de uma ótica de simplicidade, naturalidade e aceitação da realidade.

Na cultura wabi sabi, perceber a beleza que se esconde nas frestas do mundo imperfeito seria uma arte.

Existe poesia nesse olhar!



Porém, não existe uma fórmula. Não basta aplicar os conceitos e pronto. Quem cria a ambientação precisa ter essa sensibilidade de perceber  o belo no que é imperfeito. E se você não tem essa percepção, corre o risco de produzir algo horripilante! Sério! Pode haver quem goste, mas pra mim, a pessoa que compôs o ambiente abaixo não possui esta habilidade. Vê concorda? Se isso é uma proposta estética de sala decorada, pra mim é tão desconfortável e sombrio como morar debaixo de uma ponte, embora tenha plantas invadindo o espaço, tijolinhos aparentes e paredes descascadas. Agora, se foi criado como um cenário conceitual para fotografias de moda, por exemplo, é diferente. O contraste com um belo vestido ou uma peça de alfaiataria gera significado e beleza!

Repare que este outro abaixo foi cuidadosamente “construído” para causar o efeito “desconstruído”. Mas  não me transmite coisas boas como propõe a cultura. E, como ele, por aí vemos muito casos de decoração pretensiosamente wabi sabi, mas que não soube trazer a poesia ou o aconchego das folhas das cerejeiras caídas no chão, como na história da preparação do jardim para a Cerimônia do Chá.

Uma tendência que também é muito comum é dar apenas um toque wabi sabi no decór. Afinal, temos que fazer com que o ambiente também seja confortável, limpo e bem acabado. O limiar entre a tal beleza da imperfeição e o desleixo é bastante tênue.


Jardim wabi sabi

O wabi sabi acredita que as coisas simples transmitem energias positivas e espiritualidade à casa. Defende que ela deve ser um santuário, não uma loja exibicionista. Concentra-se na beleza das coisas tal e qual elas são, no conforto e no bem-estar que essa naturalidade transmite.
A palavra “wabi” significar “coisas simples e frescas” e a palavra “sabi” significa “coisas cuja beleza foi adquirida com a idade”.

Uma velha tigela de chá, musgo cobrindo as pedras do caminho, uma única rosa solta no vaso, as manchas de um espelho que pertenceu à bisavó…

Rustico19

wabisabi23

Isso tem tudo a ver com pessoas que hoje estão revendo seus conceitos, buscando a essência e ficando só com o que importa mesmo nessa vida! Uma espécie de ecologia mental para varrer todo o lixo/luxo que só serve para poluir o planeta e o espírito.

7899494_2vd1oRAp_c

É dar valor à autenticidade, à natureza e à simplicidade, em detrimento da ostentação. Tudo bem, nós não somos japoneses, portanto, isso também não é um dogma. Como todo ocidental, gosto sim da tecnologia. Mas não gosto do ar futurista que traz consigo. Prefiro ela escondida, exercendo só o seu papel de facilitar o dia a dia.

O wabi sabi privilegia-se o uso de materiais naturais (madeira envelhecida, pedra, barro, lã, algodão cru, linho, caxemira, papel de arroz…), em vez de materiais artificiais (plástico laminado, mármore, placa de vidro, porcelana, poliéster, lycra…).

Em termos de peças de decoração, valoriza as artes decorativas, a mobília e os elementos reciclados/reaproveitados, objetos feitos à mão e encontrados em feiras de usados, antiguidades e outras do gênero.

Reciclagem10

A natureza deve ser uma companhia constante e deve ser trazida do exterior para o interior sempre que possível: plantas e flores. Até galhos são muito bem vindos.

CorRustico

Fazem parte do espírito wabi sabi as formas irregulares, que não têm necessariamente que combinar entre si, peças com alma: fotografias em preto e branco do casamento dos seus ancestrais e da família, lençóis e toalhas bordados pela sua avó na Ilha da Madeira, um conjunto de pedras apanhadas à beira-mar ou um desenho colorido do seu filho, cantinhos de meditação e relaxamento…

CombinacaoPerfeita (2)

No ambiente certo, as peças gastas por anos de uso ganham uma magia inigualável e reconfortante, são companheiros de uma casa, testemunhos de uma vida.

E eu acrescento que tudo isso em contraste com elementos novos, cores alegres e misturado a peças de design contemporâneo fica “perfeito”! Rsrsrsrs….

Share.

About Author

Este blog é de autoria da decoradora, organizadora de interiores, consultora em decoração e organização, Veronica Fraga, que também é fotógrafa, jornalista e colunista da Revista Rio Arquitetura e Design. Uma pessoa multifacetada e apaixonada por tudo o que é ligado a estética.